quarta-feira, 8 de abril de 2009

alterações climáticas - ciclo de conferências

ontem tive oportunidade de ir, com méri cat, à primeira conferência do ciclo um alerta global para a sustentabilidade, promovido pela cgd.
enquadrado no devido estado de espírito tendencioso a estas questões globalizantes e fulcrais, lá estávamos as duas curiosas e ávidas de informação nova, de soluções e de sementes para ideias futuras.

foram três intervenções, a saber:

antónio gonçalves henriques, presidente da apa
a temática do ambiente no contexto mundial
aqui falou-se de pegada ecológica, focando turning points (início do défice ecológico em 1985, segundo o conceito de pegada ecológica).
falou-se também da necessidade urgente de uma mudança de paradigmas para que a 2040 se tenha invertido esta tendência de crescimento (em termos de recursos do planeta) e que a população humana volte a precisar apenas de um planeta para satisfazer as suas necessidades. ou seja, eliminar o défice ecológico.
como? segundo gonçalves henriques, através da redução da pegada ecológica e da recuperação da capacidade biológica. ora a redução da pegada será uma consequência da utilização de sistemas de produção mais eficazes, da alteração dos padrões de consumo e de um controlo no crescimento populacional. recuperar a capacidade biológica, por seu lado, assenta na protecção, gestão e recuperação dos ecossistemas.
esta intervenção foi positivista, alertando mas mantendo que temos tempo e oportunidade para encetar as mudanças urgentes e incontornáveis em direcção à sustentabilidade.

viriato soromenho marques, entre outros, professor da flul (http://www.viriatosoromenho-marques.com/)
quatro princípios de ética pública para um novo regime climático em copenhaga
soromenho marques é um professor e isso revelou-se no seu discurso. de forma académica e interessante debruçou-se sobre o conceito de crise e no como encará-la numa perspectiva de motor para a procura de caminhos alternativos àquele que se fechou.
a crise ambiental, nas suas palavras, não tem paralelo nas suas características: tem uma dimensão planetária (como parodearam outros: o ar é de todos); tem implicações irreversíveis ao nível da biodiversidade, já que não é possível inverter o fenómeno de extinção; sofre de um feedback positivo em termos de aceleração cumulativa das interligações, por exemplo, entre clima e contaminações da cadeia alimentar; leva-nos a situações de descontrolo crescente no campo da segurança ambiental - e aqui exemplificou com a crueza do comentário feito pelo (se não estou em erro) presidente do bangladesh relativamente à possibilidade de a subida do nível médio das águas do mar obrigar à migração de um terço da população rumo à índia: se tal ocorrer, não tem dúvidas de que a resposta indiana seja uma resposta militarizada; é ainda uma crise que se reveste de características entrópicas e complexas, de natureza ontológica e estrutural.
explicou ainda a evolução da composição atmosférica em ppmv CO2 equivalente (onde se incluem, para além do próprio CO2, CH4 metano, N2O óxido nitroso, HFC hidrofluorocarbonos, PFC perfluorcarbonos e SF6 hexafluoreto de enxofre).
resumidamente, em 1750, tínhamos 270-285ppmv CO2 equiv e em maio de 2008 atingimos as 387ppmv, com 50% das emissões ocorridas após 1970. a ue está comprometida com a estabilização do tecto das 450ppmv, até 2020. esta meta, contudo, acarreta uma probabilidade de 78% de um aumento da temperatura média global de 2ºC e 18% de probabilidade de que esse aumento seja de 3ºC. falhar esse objectivo e permitir um incremento do CO2 equiv até as 550ppmv implica 69% de probabilidade de um aumento de 3ºC, 24% de 4ºC e 7% de 5ºC. (de notar que 5ºC foi quanto a temperatura média desceu durante o último período glaciar).
entre outras, o aquecimento global terá consequências como o desaparecimento do gelo do ártico em 2040; o desaparecimento dos solos permanentemente congelados (permafrost) da tundra siberiana e consequente possibilidade de libertação para a atmosfera de milhões de toneladas de metano; a disrupção da estabilidade da criosfera, sobretudo das massas de gelo sobre a antárctida e a gronelândia; a alteração do comportamento dos oceanos podendo estes perder a sua função de sink de carbono (o aumento de temperatura conduz à acidificação das massas de água oceânicas, havendo a possibilidade de o carbono retido ser devolvido à atmosfera); a transformação da floresta amazónica em savana; a imprevisibilidade do futuro dos regimes de monção na ásia e áfrica ocidental; o desaparecimento das massas de gelo dos himalaias, comprometendo todo o sistema hídrico delas dependente...
soromenho marques justificou ainda o protelar da aceitação destas evidências: o ser humano utiliza dois mecanismos de processamento de informação, um analítico, baseado nos factos e outro afectivo, assente no primado das experiências anteriores. não havendo memória, na história humana, de tantas alterações de origem antropogénica, há uma inerente dificuldade em aceitar essa responsabilidade. dificuldade potenciada também pela quase incomportabilidade do que é o risco incomensurável associado às alterações climáticas, aos resíduos e instalações nucleares, aos OGM (versus o risco medido pela probabilidade e estatística, como seja o da possibilidade de um acidente de carro).
o desenvolvimento sustentável deve, então, ser encarado como um projecto. definindo-o à luz das 4 causas de aristóteles para explicar o movimento (metafísica I, 3, 983a), esse projecto compôr-se-á de um âmbito social - a causa final, tratará do ambiente - causa formal, por meio da economia - causa material e será posto em prática através da política e do institucional - causa eficiente.
soromenho marques rematou a sua intervenção sumarizando então os 4 princípios para a reunião de copenhaga, que decorrerá no final deste ano:
1) princípio das responsabilidades comuns, mas partilhadas (proveniente do mandato de bali, 2007), o que estará na base dos princípios subsequentes
2) princípio do constrangimento físico e urgência - temos que nos adaptar!
3) princípio da solidariedade e da justiça entre gerações (definido primeiramente por thomas jefferson, em 1789) - as alterações climáticas constituem uma dívida ontológica!
4) princípio da cooperação compulsiva pela sustentabilidade global - só de forma unida e solidária poderemos ser bem sucedidos nesta matéria.

nuno lacasta, comissão para as alterações climáticas
pós-2012: o mercado de carbono e as perspectivas pós-quioto
nuno lacasta foi quem deu uma palestra mais premente de actuação, não sem sublinhar o aspecto positivo do regresso dos eua às questões climáticas. alinhado no discurso anterior sobre o aumento de temperatura global na meta dos 2ºC (consequência de não mais de 450ppmv CO2 equiv), mostrou que, de forma global, as emissões têm que ser reduzidas na ordem dos 85 a 90%, nos países desenvolvidos, até 2050!
nesse sentido, as metas propostas pelo ipcc (intergovernmental panel for climate change) são da redução de CO2 equivalente em 25-40%, até 2020. a ue, por seu lado, propõe-se a realizar uma redução de 30%.
o relatório mckinsey define um conjunto de medidas para a redução do CO2 equiv segundo os custos das mesmas. há de facto algumas (futuramente incontornáveis) muito dispendiosas, mas outras ditas no-regret, e que são as primeiras do gráfico abaixo.

foi a comunicação claramente mais política, sem o ser em excesso.


depois das três intervenções, seguiu-se um pequeno período de debate, onde foram focadas temáticas como o papel da educação, das energias renováveis, a ineficácia da mensagem passada às massas (a sala estava meio vazia, como disse alguém, são sempre os mesmos) e que a prova de que estas alterações climáticas são antropogénicas reside no facto de alguns dos gases de efeito estufa (como o N2O) não existirem antes da actividade humana.
teria sido um espaço interessante se o anfitrião das conferências, o jornalista martim cabral, não tivesse a péssima postura de manipular as questões colocadas com vista a um populismo claramente descontextualizado.

se ainda tiverem coragem, espreitem o resumo da imprensa.

pessoalmente, a mensagem que me fica é que há muito trabalho a realizar, sobretudo ao nível das mentalidades, para que possamos dar os passos certos em direcção a essa sustentabilidade. será um caminho exigente de sacrifícios, em que teremos que nos desligar de uma forma de vida individualista e consumista para pensar a nível global - suponho que já saibamos isto há bastante tempo. o outro aspecto positivo a que a minha mente se decidiu agarrar foi à evolução crescente da tecnologia, que permitirá evoluir de formas menos disruptivas.
não faz qualquer sentido, no dito mercado de carbono, que os países em desenvolvimento tenham que se privar do desenvolvimento e da melhoria das condições de vida a que têm direito. mas se pudermos utilizar tanto a experiência dos países desenvolvidos, como os mecanismos mais eficazes e limpos que todos os dias são disponibilizados, gostaria de acreditar que se pode caminhar para um equilíbrio mundial a todos os níveis.
para isso, há que não ignorar que ambiente É economia.

posto isto, para a semana, lá estaremos para ouvir as intervenções de silas k. siakor e joão ermida no âmbito dos direitos humanos.

2 comentários:

Catarina em Lx disse...

Eu bem que te vi a tirar notas, mas dá-me a sensação q tb fizeste o trabalhinho de casa, hein??? Com gráficos e tudo!!! Sim senhoressss!!! Faltou foi a referência ao activista-de-Direitos-Humanos-artista-de-dança q falava de forma estranha e enfim, digamos... talvez algo toldada pela emoção desse nectar do gato lá de casa...

grao_de_po disse...

pois faltou, mas quis deixar um tom mais sério nisto.
de qualquer modo, esse senhor personifica a razão de os activistas tantas vezes não serem levados a sério. por muito nexo que o seu discurso interno pudesse fazer, se não o comunicar em língua de gente, cairá no ridículo e no descrédito.