segunda-feira, 31 de janeiro de 2005

Há sempre lugar para mais um ausente, vejam quem é hoje!

Cá vai uma fatia de uma crónica da nossa deusa Adília Lopes,

"Passei pela montra do fotógrafo. As fotografias estão róseas ou amarelecidas. Ainda lá se podem ver as noivas gordas, algumas salpicadas por cagadelas de mosca, mostrando os dentes estragados num sorriso envergonhado, coroadas de tule e florinhas. Os noivos apagados ou ausentes como se aqueles casamentos fossem todos por procuração. Lá estão também as matronas pimponas cobertas de jóias, o vestido apertado. Raparigas solteiras que prometeram o retrato ao namorado e se esmeraram no penteado. Bebés nus deitados de barriga para baixo, os olhinhos boquiabertos, assarapantados como baratas de pernas para o ar, a pulseirinha oferecida pela madrinha a luzir no pulso rechonchudo. Crianças com fatos domingueiros empoleiradas em coxins de veludo posando para o passarinho e que são hoje mães e pais de família."

in Público, 29-02-02

sai um pastelinho de bacalhau

2 comentários:

Paulo disse...

isto sim é ausência na sua forma mais pura e literária.

obrigado por nos abrires os olhos à ausência que nos rodeia!

Paulo disse...

agora num registo mais sério, neste caso a ausência até resulta numa bela crítica de costumes. mas também pensando bem, não é de agora que se dizem muitas verdades de forma menos séria. ou não fôssemos todos descendentes de Gil Vicente. ou quase todos, porque no que a mim me toca, mais depressa está um babuínozito na árvore genealógica (ou outro animal felpudo...) do que o Gil Vicente